A cidadania italiana iure sanguinis sempre foi um direito complexo — não um protocolo automático.
Ao longo das últimas décadas, o mercado da cidadania italiana passou por profundas transformações. O que antes era um procedimento pouco conhecido e conduzido quase exclusivamente pelos consulados italianos tornou-se um setor altamente competitivo, movimentando milhares de processos todos os anos.
Nesse processo, o reconhecimento da cidadania italiana deixou de ser visto apenas como um direito histórico e familiar e passou a ser tratado, muitas vezes, como um produto de massa.
Compreender essa transformação é fundamental para entender o cenário atual, as mudanças legislativas recentes e os desafios enfrentados por quem ainda busca o reconhecimento da cidadania italiana.
Quando o consulado deixou de dar conta
Durante décadas, o reconhecimento da cidadania italiana acontecia exclusivamente pelos consulados italianos. Era burocrático, mas relativamente linear.
Com o crescimento da demanda — especialmente no Brasil, onde cerca de 30 milhões de pessoas têm ascendência italiana — o sistema entrou em colapso silencioso.
As filas explodiram. Em consulados como o de São Paulo, os prazos ultrapassaram uma década.
Foi nesse vácuo que ganhou força uma alternativa legítima: o reconhecimento diretamente em território italiano, em pequenos comuni. Mais rápido, mais direto — e logo transformado em negócio.
A via judicial: de solução legítima a produto de massa
Enquanto a fila consular se tornava insustentável, um grupo específico de descendentes sequer podia entrar nela: os que tinham ascendência por linha materna com filhos nascidos antes de 1º de janeiro de 1948.
Essa restrição era baseada em uma legislação historicamente discriminatória.
Em 2009, a Corte de Cassação italiana reconheceu seu caráter inconstitucional e abriu caminho para o reconhecimento judicial da chamada via materna.
A partir daí, o Judiciário italiano passou a ocupar papel central no universo da cidadania.
E outra tese ganhou força: a judicialização contra as filas consulares.
O argumento era simples e juridicamente sólido — nenhum cidadão deveria esperar dez ou doze anos para exercer um direito reconhecido pela própria legislação italiana.
O sucesso dessas ações abriu as portas para a era da cidadania judicial.
E com ela, vieram os problemas.
O mercado que transformou um direito em commodity
Foi nesse período de expansão que surgiu um dos movimentos mais nocivos para o setor: a cidadania italiana passou a ser tratada como produto de massa.
O que deveria exigir análise documental rigorosa, responsabilidade jurídica e estratégia passou a ser vendido de maneira superficial e acelerada.
- Contratos padronizados sem análise individual;
- Promessas de aprovação garantida;
- Urgências artificiais e black friday de cidadania;
- Empresas sem lastro jurídico real.
A lógica do volume substituiu a lógica da responsabilidade.
E o impacto chegou inevitavelmente ao Judiciário italiano.
A reação da Itália e o cenário atual
Os tribunais italianos passaram a endurecer interpretações e aplicar filtros cada vez mais rigorosos.
O governo observou com crescente preocupação o crescimento descontrolado do setor.
Parte dessa mudança culminou na aprovação da Lei nº 74/2025, que converteu o Decreto-Lei nº 36/2025 e introduziu novas restrições ao reconhecimento da cidadania italiana por descendência.
O cenário atual — marcado pelo Decreto Tajani, pela Lei 74/2025 e pelas discussões nas cortes italianas — não surgiu do nada.
Ele é consequência direta de anos de mercantilização excessiva e banalização de um direito extremamente sensível.
A ideia de que existia uma “garantia absoluta” nunca foi totalmente verdadeira.
Ela foi, em grande parte, construída pelo próprio mercado.
O que permanece válido — e o que mudou
Mesmo com todas as restrições e mudanças legislativas, a cidadania italiana continua sendo um direito real, historicamente consolidado e juridicamente defensável.
Ela resistiu às limitações impostas às mulheres antes de 1948.
Resistiu às discussões sobre a Grande Naturalização.
E continua sendo reconhecida diariamente nos tribunais italianos.
O que mudou é a exigência de profundidade:
- Análise documental individual, sem atalhos;
- Estratégia jurídica definida antes do início do processo;
- Distinção clara entre via administrativa e via judicial;
- Acompanhamento técnico por profissionais com atuação real no sistema italiano.
O tempo da facilidade acabou.
Em seu lugar, chegou a fase da responsabilidade.
Análise jurídica do seu caso
O cenário da cidadania italiana está em transformação acelerada.
Mais do que acompanhar notícias, o que importa agora é entender como cada mudança impacta especificamente a sua situação.
Fale com a equipe da Nacionalitália e descubra qual caminho é juridicamente adequado para o seu caso.
Perguntas frequentes
- A cidadania italiana ainda pode ser reconhecida em 2026?
Sim. O direito continua existindo para quem atende aos requisitos da legislação vigente. O que mudou é o nível de rigor na análise e a necessidade de condução jurídica adequada.
- O que é a via materna na cidadania italiana?
É o reconhecimento judicial do direito à cidadania transmitida por mulher italiana cujos filhos nasceram antes de 1º de janeiro de 1948. Esse tipo de processo exige atuação no Judiciário italiano e não pode ser conduzido administrativamente.
- O que é a judicialização contra a fila consular?
É o processo judicial movido quando o descendente não consegue agendar atendimento no consulado dentro de um prazo razoável. Trata-se de uma via juridicamente sólida, mas que passou a ser explorada indiscriminadamente pelo mercado.
- O que significa a cidadania italiana ter sido “mercantilizada”?
Significa que empresas passaram a vender o reconhecimento da cidadania como produto de resultado garantido, sem análise individual séria, sem responsabilidade jurídica e com promessas que o próprio sistema não sustenta.
- Como saber se tenho direito à cidadania italiana após a Lei 74/2025?
A resposta depende da sua linha de descendência, geração envolvida, histórico documental e momento processual. Não existe resposta genérica — cada caso exige análise individual especializada.

Claudia Scarpim
Claudia Scarpim é fundadora no Nacionalitalia e tem como principal missão proporcionar aos clientes, serviços de excelência em cidadania italiana, mantendo foco permanente na agilidade, confiabilidade e precisão na prestação de serviços, sendo referência em assuntos relacionados à cidadania italiana.